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MateusFernandes   MateusFernandes Mateus Fernandes's TIGblog
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Série "Fragmentos" - 8

Sobre o Agradecer

(...)
Muitas vezes, agradecemos quando algo de bom nos acontece, ou quando alguém faz algo de bom pra nós. Agradecemos porque, enfim, já alcançamos o que desejávamos, o que nos parecia bom para nós mesmos.

Mas há um outro lado da gratidão, muito bem preservado nos idiomas inglês e alemão. Para aqueles povos, o gesto de agradecer surge da mesma raiz que o ato de pensar em algo, de lembrar de algo.
No inglês, o verbo "to think" (pensar ou lembrar) está muito próximo do verbo "to thank" (agradecer).
O mesmo ocorre no alemão, com os verbos "danken" (agradecer) e "denken" (pensar).

É também por esses prismas que poderíamos demonstrar gratidão: pensando em como é importante ter você por perto, lembrando de como foram bons aqueles momentos.
Mas, acima de tudo, posso pensar não somente no bem que você proporciona a mim mesmo, senão que, também, no bem que ainda vai proporcionar a outras pessoas.
Devemos, enfim, nos lembrar, com alegria, de nossa responsabilidade em transformar as palavras proferidas em gestos e atitudes - de fazer do discurso sobre a vida, decurso de ação.

Assim gostaria de agradecer: pensando, lembrando e, como se diz no velho e bom português brasileiro, sendo grato, grato, gratíssimo.
(...)

Crédito da Foto: Orlando Pedroso

September 1, 2008 | 2:44 PM Comments  0 comments

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MateusFernandes   MateusFernandes Mateus Fernandes's TIGblog
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Pequenos Amores

ou Traduzindo Ensinamentos Comprovadamente Reducionistas e Insatisfatórios

"Se eu não pude escolher te amar,
agora posso escolher não te amar.
Mas não quero!"

"Sempre houve mais de você em mim,
que em você mesma"

"Não sei por que nosso amor é assim.
Mas consigo descrever exatamente
como ele é assado"

"Se, para cada problema que aparecer,
tivermos uma solução definitiva,
só o que restará para fazer
será ficarmos nos beijando, noite e dia...
Tedioso, não?!"

Crédito da Foto: Orlando Pedroso

August 25, 2008 | 9:06 PM Comments  1 comments

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MateusFernandes   MateusFernandes Mateus Fernandes's TIGblog
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Amigo-Guindaste

Para Antonio Lino

Somente um gigante poderia conter dentro de si um guindaste, amigo.
Talvez seja a teimosia a coisa maior que guardamos dentro de nós.
Talvez seja o amor.
Seja o que for, cabe dentro do peito.
Teu guindaste, amigo, estava nas mãos, estava nos pés. Como pôde caber?
Talvez sejas maior do que eu supunha...

Somente um sobre-humano poderia erguer toneladas ao longo do dia, amigo.
Talvez sejamos, enfim, mais leves do que imaginamos.
Talvez sejamos, ainda, mais poderosos e resistentes - em nada comparados à fragilidade do botão de rosa que treme diante da mais ínfima gota de orvalho.
Talvez sejamos, finalmente, deuses que aprenderam a dançar.
O nosso balé, então, pode ser feito de suor e sangue, com pó de magnésio e muita força - nada de frágil, nada de delicado, nada de sutil, nada de pueril (a não ser o próprio pó).
Se pudemos suportar isso tudo, poderemos agora suportar a verdade?

Somente um louco-suicida poderia prender-se, nas alturas, a um cordão, amigo.
Talvez, na esperança de voltar ao ventre materno, ousemos adentrar no ventre da terra-mãe içados por uma corda.
Temos, entretanto, de nos esquecer que o ventre está lá no alto, longe da terra e perto do céu.
Temos, entretanto, de nos esquecer que o ventre não mais nos protegerá, mas nos instiga e nos faz arriscarmos a própria vida.
(E que vida seria plena se não pudesse ser arriscada, ou se pudesse ser comparada à mera sobre-vivência?)

A escalada não é a metáfora da vida
(para vender alguns livros de auto-ajuda).
A escalada é a própria vida
(porque não há nada além dela).

E se a dor nos atinge, não será fechando os olhos que ela irá desaparecer, amigo.
Para quem está na terra e quer conhecer os céus, não há comprimido que dê jeito.
A única solução - a primeira inventada pelos humanos mais antigos - continua sendo essa: contempla o mundo e siga a vida.

August 21, 2008 | 3:17 PM Comments  1 comments

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Série "Fragmentos" - 7
About this category: Peace, Conflict & Governance


Sobre a Hospitalidade

(...)
Tenho mesmo um grande prazer em mostrar meu país para outras pessoas e acredito, com Leonardo Boff, que a Hospitalidade é um dos valores a serem cultivados neste novo século.
Saber receber e bem receber são méritos hoje já esquecidos.
Abrir as portas para o desconhecido, receber e acolher o que lhe chega ou que lhe é entregue são práticas necessárias num mundo cada vez mais fechado e dominado pela cultura do medo e do individualismo, que isola e destrói a coesão.
Mas, como se diz por aí: "Mi casa, su casa". Assim, para toda hospitalidade deve haver reciprocidade e cuidado (como carinho e como segurança).
Com todos os "cuidados" que sei que tomará em bem-receber os visitantes estrangeiros e também em preservar sua terra, tenho algumas idéias a compartilhar.
(...)

Utilidade Pública:
A Coleção “Virtudes para um Outro Mundo Possível” (Ed. Vozes), de Leonardo Boff, é composta de 3 volumes:
Vol. 1- A hospitalidade: direito e dever de todos
Vol. 2 – Convivência, respeito, tolerância
Vol. 3 – Comer e Beber Juntos e Viver em Paz – Comensalidade

Crédito da Foto: www.couchsurfing.com

August 19, 2008 | 9:15 PM Comments  0 comments

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Série "Fragmentos" - 6

Sobre Elogios

(...)
Se um elogio nunca chega em má hora, é da sua partida que ouso reclamar. Não é que um elogio devesse permanecer estanque, imóvel, na prateleira de nossas vaidades, pronto para ser usado e revisto todas as vezes que necessitamos de um afago ou de uma certa declaração que nos impulsione novamente - sem que tenhamos de mover um músculo sequer - para darmos continuidade aos nossos passos. O caso é que o elogio - essa é minha desconfiança - tem como princípio a necessidade de ser efêmero. Na verdade, é do instante que se vale o elogio. De um instante sublime, próximo a congenialidade - quando dois gênios (ou dois corações) se abraçam e se entrelaçam, se reconhecem e se elevam -, é verdade. Ainda que se elogie o conjunto de uma obra, ou a história de uma vida, é impressionante como o elogio mais parece um gatilho que, não mais que de repente, dispara uma palavra que adjetiva a substância ou que revela tonalidades (antes) ocultas da imagem. Entretanto, perecem os adjetivos e ficam as coisas. Desbotam as cores e permanecem as imagens (ou, ao menos, a lembrança das imagens). Coisas, inertes que são; palavras, impessoais que sejam; atos e vidas, imprevisíveis que se mostrem - a tudo pode-se elogiar, desde que não se espere a permanência (do elogio). De quê vivem então as coisas, as palavras e os acontecimentos? Ao que muito me parece, não é de elogios.
Seriam assim, de modo contrário, o deboche, a ironia, o desdém - a crítica (em seu sentido mais ordinário), enfim - modos de apresentação de uma observação mais perene?
Seria da crítica - e não do elogio - que viriam as forças para que as coisas sigam? É do atrito que se faz o caminhar...
Pode soar ridículo - e é exatamente essa a intenção -, mas um dos sinônimos para "elogiar" é "gabar", palavra que vêm das antigas línguas nórdicas (gabb) com o significado de "escárnio": que é, então, uma gozação, uma ironia, um sarcasmo... Onde foi que se perdeu esse "tom" que vinha junto à melodia dos elogios?
De todo modo, há palavras que devem ser escritas na areia da praia, ao passo que outras devem ser esculpidas na pedra. Há umas últimas que, ditas ao vento, preferimos que sejam logo levadas embora. O que não se deveria querer é "evitar as palavras". Não faço opção por "palavras não ditas", pelo "silêncio de ouro". Gosto da prata e me satisfaço com ela. Que venham palavras...
(...)

Crédito da Foto: Orlando Pedroso

August 14, 2008 | 11:52 AM Comments  0 comments

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Janela embaçada

ou "O amor acaba"


Uma janela embaçada.
O mais puro e fino sinal da sacanagem.
De lá de fora, todos poderiam jurar se tratar de um duelo amoroso dos mais pervertidos. As janelas, sem se darem conta, estavam também umedecidas e arfantes. O barulho, que vinha dali de dentro, era nauseante.

As janelas, pobres janelas!, eram o sinal mais inequívoco - embora o mais frívolo - de que naquele lugar dava-se um caso inusitado.

(Deixavam claro que algo, ali dentro, não se passava bem - ou passava bem demais para as pequenas vaidades daqueles que não foram convidados para o benefício da festa.)

As janelas, suadas e molhadas, persuadiam, embora mentissem.
Os vizinhos, em suas ânsias de descanso (nem sempre merecido), reclamavam. O suposto trepidar de uma cama era o suficiente para o zelador ser chamado.

As janelas, o barulho, o cheiro. Tudo indicava a presença do diabo da sacanagem, do anjo do amor - ou das putas e putos que trepam noite adentro sem se importarem com o que quer que seja.

O zelador, já desperto, era o mensageiro das más notícias. Mas as coisas exteriores costumam enganar.

Todos puderam pensar que dois amantes acabavam de se encontrar, e se entrelaçavam ardilosamente. Mas tudo o que havia ali dentro era um velho e seu aquecedor. Um velho punheteiro e um aquecedor barulhento.

Prostrado por sobre a cama, o aquecedor trepidava aos galopes. Enchia o lugar de uma bruma quente e suave. As janelas, sem mais o que fazer, se embaçavam. O pobre e velho punheteiro, passivo, gostava daquela situação. O silêncio o deixaria nervoso. E o calor o fazia lembrar-se do buraco quente da zona.

O velho pensava em um tempo bom, quando as putas desfilavam em meio a outros velhos punheiteiros. Eram putas gordas e ancudas. Entretanto, para cada um daqueles velhos punheiteiros, elas lhes pareciam anjos louros e finos. Suas madeixas longas e esvoaçantes contrastavam com o ambiente empolado e sujo. Passavam de um canto a outro como anjos caídos, entre o céu e o inferno.

Os velhos punheteiros pensavam em um tempo, quando estas mesmas putas lhes acariciavam a face em vista do mais singelo sorriso. As putas tinham em mente que lhes valia muito o mais mísero trocado.
Elas, de nenhuma forma, desfilavam. Se arrastavam. Se enfadavam. Eles, de todas as formas, se divertiam com suas próprias anedotas e fantasias. Putas e velhos pareciam conviver bem, embora estivessem, de fato, em mundos separados.

Também separados, pelas janelas úmidas, estavam todos os desconfiados daquele condomínio e o pobre e velho punheteiro.

Não estavam, ali dentro, dois amantes insandecidos e despidos. Não se acariciavam, nem se amavam. Era somente um velho e seu aquecedor. Um velho punheiteiro e um aquecedor barulhento.

O velho punheteiro não se apressou em atender o zelador. Também não deu ouvidos aos reclames dos vizinhos. Em sua calma tranqüila e em sua lentidão ousada, o velho punheteiro aguardava o porvir. Antes de todos, e mais que ninguém, o velho sabia que o amor acaba. Mesmo entre dois amantes que embaçam as janelas.

Quando um dos dois, golpeado pelo gozo profundo, deixa escapar mais de si do que se dispusera a dar, o outro se enche. (O outro é lambuzado.) Não somente pelo suor ou pelo sangue. O outro se enche do amor. E é aí que o amor acaba.

By MBF - 08/08/08
Um louco devaneio, que me tomou de súbito, no meio da noite fatídica de 8-8-8, quando o portal do Arcanjo Miguel se abria diante de nós... Vc viu?!

Crédito da Foto: Orlando Pedroso

August 12, 2008 | 12:13 PM Comments  0 comments

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Cuiabá, 30/07/08
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Uma cidade velha, vestida de cidade grande.
Uma cidade pequena, dessas que a gente vê no interior (mas também, às vezes, no litoral), vestida de capital do Mato Grosso.
(Aliás, interior é tudo aquilo que está no litoral ou tudo aquilo que não é capital?)

Há muito o que se ver em Cuiabá. E engana-se aquele desavisado que achar que ali só há a Chapada dos Guimarães (embora a chapada seja um verdadeiro "must-see", né?!).

A entrada do Arsenal, hoje mantido pelo SESC, que tem outros "empreendimentos" na região, vale mesmo a visita. O seu interior vale umas preciosas horas - de descanso ou de atividades (como cinema, música, teatro, gastronomia, um cafezinho, um trago de Canjinjin...).

A sorveteria Nevaska é mantida por uma família simples e alegre, que faz da arte de fazer sorvetes um negócio que parece ter virado tradição na capital - talvez por manter suportável o calor constante e escaldante.
Um sujeito de poucos sorrisos, e nenhum cabelo, oferece, constantemente, alguns maciços nacos volumosos de sorvetes variados e dos mais estranhos - e deliciosos - sabores. Não sei se a tática das "provas" é freqüente (duvido, pois com um sorvete cascão muitíssimo farto a R$ 2,50, dá pra viver bem só com as "provas" oferecidas!), mas sei que, também por ela, voltei no dia seguinte.
Num dia, sorvete de cupuaçu com bocaiúva. A Bocaiúva, dizem os locais, é o "chiclete cuiabano". Provei do sorvete. Do chiclete "in natura" só iria provar no dia seguinte - quando a pedida foi sorvete de açaí e, claro, novamente de bocaiúva. Por R$ 5,00 ao final de 2 dias, havia tomado quase 1 kg de sorvete de sabores tão pitorescos quanto de bocaiúva, açai, cupuaçu, limão, laranja, amendoim, passas, ameixa, goiabada-com-queijo e até de - imagine! - chocolate...

Crédito da Foto: Mateus Fernandes.
"Cuiabá antiga" é pleonasmo ou eufemismo?

August 11, 2008 | 4:29 PM Comments  0 comments

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Londrina, 20/07/08
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Mais um ônibus, algumas horas na estrada.
Entre os quilômetros, um café e um cigarro, muitas pessoas, despedidas, amores e histórias. Aqueles que ficam, vão embalados nas lembranças e memórias. O ônibus se move lentamente. Agora está escuro e trêmulo. Ainda resta uma longa noite pela frente...

Dia seguinte. Estrada.
Uma cruz fincada no chão ocre e seco. Uma história demonstra seu fim. Mas o que será que se passou para que um sujeito morresse assim, na beira daquela estrada, num descampado terrível? Talvez seja um história de luta, talvez seja uma história de vingança, emboscada, de honra. Talvez seja só de fome e cansaço mesmo. A estrada romantiza a história, como a palavra erotiza o lugar.

Uma placa: "Vende-se bananas". Escondida, quase soterrada pelo mato, como se o vendedor não quisesse realmente que o passante soubesse de seu ofício, para que não o importunasse em seu cochilo, com pedidos insolentes: "- Quero uma dúzia!".

A estrada também tem dessas coisas. Um lugar aberto, ligando os mundos e as direções. Mas escondendo, ao mesmo tempo, histórias, pessoas, mortes, paixões.

Uma vala segue paralela a alguns trechos do caminho. Deveria escoltar a pista e conduzir a chuva - sabe-se lá pra onde!? Mas hoje é só mato. Talvez pela seca prolongada e pela carência da chuva, ela mesma tenha escolhido outro companheira de rumo que não a vala. Ela, a vala, logo se perde e deixa em sua ausência a pergunta: - Para quê uma pequena vala, num pequeno trecho, de uma pequena estrada, no interior do Mato Grosso?

Crédito da Foto: Mateus Fernandes.
Eu em uma das muitas vielas coloridas e charmosas de Cuiabá, no interior do Mato Grosso, onde também se encontram valas perdidas no meio da estrada, dentre outras coisas curiosas...

August 9, 2008 | 4:21 PM Comments  0 comments

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Curitiba, 17/07/08
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Museu do Olho.
Museu Oscar Niemeyer.
Com sua arquitetura constantemente surpreendente, o museu me teve por um par de horas. O suficiente para apreciar uma exposição de Tarsila do Amaral.
Mulher de cores fortes, mulher em degradê - sempre tornando-se mais forte, mais viva. Em tons e em diferentes graus sua pintura atrai.
Não me lembro de ter visto, outras vezes, conjunto vasto de suas obras. Primeira e rápida vez. Decisiva para notar em Tarsila a marca de um gênio que apresenta filosofia em cores e pinceladas. Que faz da cor modo de apresentação dos conceitos: no caso, a Antropofagia. Homens comendo homens? Uma forma - ou melhor, puro conteúdo - de cabeça pequena e pés largos: sinal de mais "pisadas" do que de "raciocínios" sobre as "novas" terras?
Ou só uma de-formação? Sem contornos, mas com definição das cores, seus limites. Mas mesmo no conteúdo das cores, o que há é o degradê: tons e nuances de uma só cor tornada várias.

"Tarsila
amora amorável d'amaral
prazer dos olhos meus onde te encontres
azul e rosa e verde para sempre
". Drummond.

Uma mulher que, em seu gesto, faz o olho, cria o olhar - tal como o azulejo à saída do Museu. Figuras que se con-figuram de modo surpreendente - ainda que constante - em Tarsila e Niemeyer.

Assim foi o passeio desse fim de tarde em Curitiba, depois de visitar a Universidade Livre do Meio Ambiente e a Ópera de Arame (ou o "Teatro de Metal", como me disse prontamente Gauth - quem me hospeda por aqui junto com Lívia - com seu olhar estrangeiro e inteligente.).

Tomara que amanhã consiga agilizar as coisas do GEO, para partir tranqüilo de Curitiba...

Como articular sem interferir no fluxo dos acontecimentos locais?

Crédito da Foto: Mateus Fernandes.

August 7, 2008 | 10:20 AM Comments  0 comments

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Embornal
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E foi com carinho maternal
que você preparou frutas
pra minha viagem, num embornal

A medida que saía do centro da américa
Comia maçã e uma tangerina
com gomos vivos e macios
como a pele daquela menina,
que vi se transformar em mulher

A cada mordida suspirava e imaginava
se não seria o teu corpo que devorava
com aquela súbita fome adolescente.
E mordia novamente, olhando o sol poente,
que deixava a noite lhe penetrar, paciente.

Quando a Lua, reluzente, ousou despertar
foram os meus sonhos que demonstraram toda a fome:
fome de viagem
fome de memórias
fome de histórias
fome de você

Mesmo a estrada sendo longa
E as distâncias, tão grandes
houve pouco tempo pra quantidade de imagens
que povoaram aquelas paragens.
Todas elas erotizando um tempo já vivido
reconstruindo um momento já passado
adjetivando o mais puro substantivo
fazendo reacender a chama do impensado

E quando nós nos reencontrarmos
que haja frutas, e memórias e histórias
pois só de corpos e amores
não mais me satisfaço: quero cores e sabores!
quero o longe, o difícil, o tenaz
quero o suor, a língua e o que jaz
quero tua fruta, tua alma

Quero que prepares, com calma
meu próximo embornal.

By MBF
Crédito da Foto: Orlando Pedroso

August 6, 2008 | 4:10 PM Comments  0 comments

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Série "Fragmentos" - 5
About this category: Learning & Education


Política Substantiva, por Mateus Fernandes
Sobre o livro "Medo e Ousadia", de Paulo Freire e Ira Shor

(...)
– Mas o que fazer na segunda-feira?, pergunta a professora, que um dia se achou “tia”
– Aprenda a jogar cartas!, responde o animado Paulo Freire, com suas estórias do dia-a-dia
O lance é ler a realidade, saber onde se vai pisar
Mas em terra alheia há de se pisar no chão devagar
Por incrível que pareça, nem todo mundo gosta de política e educação
Temas que fazem a cabeça ir longe, que dão trabalho e exigem atenção
Melhor mesmo é ganhar dobrado e trabalhar sentado, ver a vida passar mansa e tomar, no bar, um chope gelado
E não é que o professor, daquele tipo libertador, que nunca separa o lado que educa do lado pesquisador
Vai até o boteco, ver o que descobre ali? E não é acha um canto em que possa interferir?
Mas o aluno não é bobo – chega a ser até sabotador – se não é chamado pra fazer junto, se não está junto como educador
Cada um com sua tarefa, cada qual com sua responsabilidade – há muitas diferenças entre o aluno e o professor
E não é só questão de idade, nem de conhecimento, nem de amor
Pois pra se aprender e pra se ensinar, ambos têm de concordar que o que fazem tem valor

Outra dica muito boa, relembrada por Ira Shor, é montar o mapa ideológico – que Paulo Freire explica melhor
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que o trabalho de ensinar, mesmo quando é profundo
não será suficiente para mudar o mundo. Então pare de idealizar e comece a sonhar.
O ideal não tem limite, mas o sonho carrega o medo de enfrentar o que existe.
E assim, sonho e medo, medo e ousadia, vão encorajando o professor que não
desiste, nem mesmo no último dia

Depois dessa breve preleção, vale ainda fazer uma menção ao formato deste livro
Em diálogo, numa conversa, põe-se a idéia à prova, sob todo o crivo
de um rigor metodológico. Porque se o pensamento não é linear
isso não quer dizer que seja ilógico. É estruturado, quando bem encabeçado
por dois autores, duas cabeças. Dois professores, muitas idéias
É assim que se teceu esse texto, em que o tema do medo e da ousadia
Foi-se fazendo aos poucos, não tudo no mesmo dia
Deu-se tempo, com paciência, mas sem quietude nem calmaria
Pois na relação entre estes dois autores o clima é sempre de ventania
Arejando a cabeça boa de quem faz da vida uma alegria
Nunca separando a política substantiva, do adjetivo pedagogia.
(...)

Tinha que fazer uma resenha... Acabou saindo isso daí... Será que rola de passar? :o)

June 21, 2008 | 10:49 PM Comments  1 comments

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A nuvem e o amor

Qual é a melhor?!
Vale uma passagem pra Paris!

--------------versão 1----------------
O amor, como a nuvem,
leva água pro sedento
e o protege do sol ardente
faz formas lindas a partir do ausente
e, quando triste e pesado, chora por dentro

A nuvem, como o amor,
é o porto seguro do arco-íris
que traz alegria por onde passa
é fonte de sombra e água fresca
e, o que é melhor, faz tudo isso de graça

É assim que meu grande amor,
vindo e indo, na alegria e na dor,
faz eu me sentir sempre nas nuvens, de contente
mesmo distante, sempre presente
mesmo constante, sempre intermitente
----------------------------------------------
---------------versão 2--------------------
O amor, como a nuvem,
leva água pro sedento
mas também chora por dentro.
É assim que meu grande amor,
vindo e indo, na alegria e na dor,
faz eu me sentir sempre nas nuvens, de contente
mesmo distante, sempre presente
mesmo constante, intermitente.
------------------------------------------
Crédito da Foto: Intervenção tosca sobre nuvem no céu de Brasília. Por Mateus Fernandes

June 14, 2008 | 3:48 PM Comments  1 comments

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Série "Fragmentos" - 4
About this category: Human Rights & Equity


Sobre liberdade e imparcialidade

(...)
Mas, concordando com o que foi escrito pelo cara, "respeitar a diversidade" é também a "liberdade de opiniões". E chamo a atenção novamente para a ortodoxia das opiniões hegemônicas. Há que se enfatizar que, para que a opinião seja realmente "livre", ela deve vir junto à possibilidade da heterodoxia (que é, literalmente, "opinião diferente"). Entretanto, o espaço da política parece respeitar muito mais a "liberdade de ação" do que, antes, a "liberdade de opinião". O discurso - a opinião - deve vir mergulhado nas atitudes, na ação daquele que fala. Vejo que esse é um dos motivos pelos quais a doxa - a opinião - ficou muito prejudicada e desmerecida ao longo da história da política. Cada vez menos o discurso está instaurado no centro da ação, cada vez menos a palavra é sobre os feitos e efeitos - cada vez mais a opinião é mero argumento, é para o convencimento, é para "jogar conversa fora" com os "achismos".

As leis e a burocracia dão o tratamento imparcial - como apregoava Max Weber. A política não é lugar para imparcialidade, porque é o espaço dos ânimos, é o espaço dos desejos e das ações - sempre "parciais" (tanto porque "incompletas" quanto porque "imprevisíveis"). O julgamento, o ato de julgar, pelo contrário, deve ser imparcial. Mas, ao contrário da burocracia, ao que me parece, é imparcial porque é fundado no sentido comunitário, no sentimento comum dos homens que partilham de um mesmo destino. É a isonomia - regras iguais para todos - que dá, no âmbito da política, condições para a imparcialidade, às vezes requerida pelas pessoas - e não o contrário. Mas, sobre o igualitarismo eu nem vou ousar falar novamente...

Uma política pode ser compensatória - e não vai ser igualitária. Uma política pode ser universal - e não vai ser igualitária. Não vejo como uma política pode ser igualitária (e, por isso, ser "correta"), se não for mandatária, se não for normativa - enfim, se não for Lei. Se a política está errada, então mudemos a política. Se a lei está errada - por difícil que seja - mudemos a lei. Mas as mudanças serão feitas de forma diferente, em cada um dos casos. Para se mudar a Lei, há que se observar a justiça - e daí ter atenção na imparcialidade. Para se mudar a política há que agir, há que opinar, há que se "fazer política".
(...)

June 12, 2008 | 4:39 PM Comments  0 comments

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O Acre é Verde
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Há muito tempo conheci um cara chamado Fabiano Wabane, da nação Kaxinawa. Acreano.
Há algum tempo, conheci o Orlando, Jovem Focal do Acre.
Há pouco tempo, conheci a Jaycelene, nascida no Acre e trabalhando no CTA. Conheci também a Daniela, morando no Acre e trabalhando no WWF. Conheci então a Silmara, a Fernanda, a Natália... pessoas que foram achar, no Acre, novos modos de vida.

Neste final de semana, quando finalmente estive no Acre, conheci um bocado de gente. Acreanos; e também Amazonenses, Paulistas, Cariocas... Fui lá fazer parte do Lançamento Local da publicação GEO Juvenil Brasil, que ocorreu na sexta, 06/06, na enigmática e bela Biblioteca da Floresta Marina Silva, um dia depois do Dia Mundial do Meio Ambiente, no Ano Internacional do Planeta Terra. Bom tempo pra estar no Acre, não?

E conheci, também, alguns outros modos de vida. Vidas daqueles que se denominam "Povos da Floresta", governados pelo "Governo da Floresta", cercados por "Florestas" por todos os lados - florestas de árvores, florestas de cana, florestas de pasto e florestas até de gado.

Como me ensinou um jovem Apurinã: "Nos rios não há só peixes, como nas florestas não há só árvores".

Mas foi em Xapuri que pude conhecer outros cantos e encantos dessa floresta.
Se em Rio Branco me impressionei com a beleza simples, colorida e vazia da Gameleira, com a arquitetura moderna e londrina da ponte de pedestres sobre o Rio Acre, foi em Xapuri que pude conferir o sabor de uma cidade acreana, apesar de pitada de fama dada, atualmente, pelo revolucionário Chico Mendes. Xapuri é uma solitária cidade distante 180 km de Rio Branco - caminho que percorri, de carro, em meio à pastagens, canaviais e, pra minha surpresa, um pouco de floresta e seringueiras. Na verdade, por justeza histórica, deveríamos dizer que é Rio Branco que está distante de Xapuri. Ainda mais neste ano, em que completamos 20 anos da morte de Chico. O coração da floresta pulsa mais rápido, mais triste e mais bonito dali. Afinal, a Revolução Acreana viu nessa cidade o seu epicentro - que retornou no ano de 1988 com a morte do seringueiro ambientalista e cosmopolita. Em Xapuri pude, durante o almoço no Restaurante da Dona Vicência (simpática velhinha com mais de 80 anos, ex-seringueira e atual dona de um restaurante muito conhecido no município; saída aos 13 anos do Ceará, tendo percorrido o caminho durante 11 meses com a família, morou durante 34 anos no seringal São Francisco Iracema, distante de Xapuri 12 horas de barco), conhecer uma figura folclórica da cidade: Joscires, um jovem burocrata que tem no seu blog arma de fazer piada e política. Foi também em Xapuri que reencontrei um amigo-artista, nascido perto de Bonito (MS), que está agora morando no Acre pra fazer da mistura de idéias e pessoas, movimento socioambiental e cultural. Pra fazer o que ele sabe fazer, enfim: arte. Arte na Ruína, pra bem dizer. Confira o resultado no blog do movimento. Chamado pela Filha do Homem, Elenira, trabalhando na Fundação Chico Mendes e apoiando as atividades da Casa de Leitura, Wagner é uma daquelas pessoas a quem vale dar ouvidos e também uma mão - ele não vai deixar o mundo como encontrou. E, por falar em dar ouvidos, vale mesmo dar ouvidos - e muito do seu tempo e do seu coração - para a "Deusa", a carinhosa e conversadeira Deusamar, que me recebeu muito bem na Fundação. Casada com o irmão do Chico, ela realmente tem muita história pra contar...e, se souber fazer as perguntas, ela conta mesmo!

Voltando pelos quase 200 km que me separavam do centro de Rio Branco, cheguei à festa de aniversário da Madrinha Chica (outra velhinha simpática e ativa que, do alto dos seus quase 80 anos, comandava a cerimônia). Convidado por amigos fardados, a quem sou grato, pude ver no mesmo dia outra cara misteriosa da floresta - e comprovar que na floresta não tem só árvore. Um outro amigo já havia passado pela Barquinha, e seu relato engraçado deixa claro que é com graça, humor e com uma dose de ceticismo, acompanhado pela dose de Daime, que nós - os neófitos - entramos nos bailados do Centro Espírita de Caridade Príncipe Espadarte. Uma dança entusiasmante e chamativa: butuques pra todos os gostos. Música pra se dançar e não pra se escutar. Música pra entrar no corpo, e não nos ouvidos. Música que tocou a noite toda - longa e lentamente - ao contrário da bebida servida, que é pra descer rápido pela goela. Não é pra apreciar, deixando-se embriagar aos poucos, de leve, profundamente, mas pra cumprir o momento ritual. Ritual aliás, bem brasileiro e bem documentado - com teses antropológicas e tudo mais.

Vestido todo de branco, suado, cansado, com frio, com fome, e muito feliz e tranqüilo, às 7h da manhã, finalmente o dia acabou - e com a foto ao lado pude constatar, enfim, que "O Acre não é ocre, o Acre é verde"!

June 10, 2008 | 10:34 AM Comments  1 comments

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Série "Fragmentos" - 3

Sobre poder e querer

(...)
"Por ocasião da sua formatura, desejo profundamente que você entenda o valor de cada uma dessas palavras. O poder, minha irmã, é sempre algo que nos dão, nem sempre por confiarem na gente. Espero sim que você tenha poder. Mas que você tenha aquele poder que é só seu: o poder da consciência. Espero que você possa se superar a cada dia e desejo, profundamente, que sua filosofia seja tão simples e poderosa quanto a do peregrino de Compostela: dar um passo a mais. Já o querer, nos dias nebulosos em que vivemos, tem valores diversos e confusos. Espero que compreenda, não antes de comprar diversas coisas sem valor ou sentido, que aquilo que você quer hoje pode não ser o que você realmente deseja. Nunca se deixe confundir pelas palavras querer e consumir. Espero, sobremaneira, que você queira, hoje e sempre, o impossível. Somente assim você poderá ser a pessoa que vai realizar coisas, pois o resto todo alguém pode fazer por você. No fim, sei que entenderá que, mais importante que o seu querer, é o querer compartilhado, aquele que extrapola as barreiras do seu corpo e toma conta daqueles que estão a sua volta. Você já aprendeu que querer nem sempre é poder, certo? Pois desaprenda rápido! O querer que é de todos, e de cada um, com esse sim é que se pode alguma coisa. E aproveite o caminho para entender o valor do desaprender. Perceba a importância do esquecer. Guarde para sempre a lição do seu passado, mas nunca deixe que ele seja a condição pra sua vida. Se permita esquecer..."
(...)

May 25, 2008 | 2:11 PM Comments  2 comments

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